Estar sozinho no meio da multidão..
Parece que não ouço ...
Que não sinto igual a ti...
Apenas porque estou distraído.
Neste meu mundo fantástico
Não sou capaz de ser fingido.
E não permito uma mentira
Mas eu sou igual a ti.
Olha bem para mim.
Afinal eu estou vivo.
E moro aqui ao pé de ti.
Escrito pela mãe Mina
Dedicado ao Bruno V.
sábado, 6 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
Intervenção da Família
Tanto não Perturbação do Espectro Autista como noutras perturbações, o envolvimento da família é muito importante. Os pais não são apenas aconselhados pelos terapeutas, são co-terapeutas na medida em que participam no processo de delineação dos objectivos da intervenção únicos e específicos para aquela criança.
Estes têm direito de possuir a informação sobre as melhores formas de auxiliarem os seus filhos e de, em conjunto com o terapeuta, perceberem quais são os objectivos mais importantes para a criança. Como tal, devem estar consciencializados que a sua relação com os terapeutas deve ser harmoniosa e de confiança de modo a obterem o melhor para o seu filho.
Estratégias para os pais:
• Brincar com a criança sem comandar a brincadeira(Jelínková)
• Os pais devem explicar aos filhos que só as pessoas ignorantes fazem troça dos deficientes(Jelínková)
• Os pais devem recompensar o filho autista quando faz algo positivo(Jelínková)
• Os pais não devem forçar o filho a realizar actividades/brincadeiras que ele não gosta ou não consegue fazer, para que este não se sinta um falhado(Jelínková)
• Os pais devem interagir e incentivar a criança á realização de actividades da vida diária, como ir levar o lixo, colocar a mesa, tomar banho, vestir-se sozinho etc(Jelínková)
• Os pais devem ser informados de que é normal o seu filho autista não corresponder aos seus sentimentos (Jelínková)
• Devem ensinar a iniciar, manter e terminar uma determinada interacção,
nomeadamente numa conversa (Martins, 2000)
• Devem encorajar a presença de um amigo que brinque com a criança em casa(Martins, 2000)
• Devem inscrever a criança em associações, agremiações, ou clubes, como por exemplo os Escuteiros(Martins, 2000)
• Os pais devem levar o filho autista a passear em locais públicos(Mello)
• Devem organizar actividades em horários pré-fixos por forma a estabelecer uma determinada rotina, como por exemplo, jantar, vestir o pijama, colocar na cama e apagar as luzes(Mello)
• Em algumas actividades do dia a dia, que se tornam rotineiras, a orientação para os pais deve de ser a de fomentar a variabilidade, como por exemplo, mudar o seu local na mesa, variar o canal da TV preferido dele, alterar o caminho para a escola, pois estas não são imutaveis e é bom que aprenda isto desde cedo(Mello).
Pais que tenham outros filhos para além do filho autista:
• Os pais devem explicar aos irmãos saudáveis que o irmão é autista, explicando-lhes o que significa essa deficiencia, evitando que mais tarde estas crianças criem a sua propria definição de autismo(Jelínková).
• Os pais devem reservar pelo menos alguns minutos por dia para falar da criança autista aos irmãos(Jelínková).
• Os pais não devem fazer distinções entre o filho saudável e o filho autista(Jelínková).
• Os pais devem gerir as actividades entre os irmãos para reduzir o insucesso(Jelínková).
• Os irmãos devem brincar juntos para ajudar na interacção social do filho autista (Jelínková).
Programa de intervenção dirigido para casa
O programa dirigido para casa é baseado no modelo de DIR e prevê:
• Interacções espontâneas e desenvolvimentalmente apropriadas
• Interacções semi-estruturadas – resolução de problemas
• Actividades motoras
• Actividades sensoriais
• Actividades visuo-espaciais
Estes têm direito de possuir a informação sobre as melhores formas de auxiliarem os seus filhos e de, em conjunto com o terapeuta, perceberem quais são os objectivos mais importantes para a criança. Como tal, devem estar consciencializados que a sua relação com os terapeutas deve ser harmoniosa e de confiança de modo a obterem o melhor para o seu filho.
Estratégias para os pais:
• Brincar com a criança sem comandar a brincadeira(Jelínková)
• Os pais devem explicar aos filhos que só as pessoas ignorantes fazem troça dos deficientes(Jelínková)
• Os pais devem recompensar o filho autista quando faz algo positivo(Jelínková)
• Os pais não devem forçar o filho a realizar actividades/brincadeiras que ele não gosta ou não consegue fazer, para que este não se sinta um falhado(Jelínková)
• Os pais devem interagir e incentivar a criança á realização de actividades da vida diária, como ir levar o lixo, colocar a mesa, tomar banho, vestir-se sozinho etc(Jelínková)
• Os pais devem ser informados de que é normal o seu filho autista não corresponder aos seus sentimentos (Jelínková)
• Devem ensinar a iniciar, manter e terminar uma determinada interacção,
nomeadamente numa conversa (Martins, 2000)
• Devem encorajar a presença de um amigo que brinque com a criança em casa(Martins, 2000)
• Devem inscrever a criança em associações, agremiações, ou clubes, como por exemplo os Escuteiros(Martins, 2000)
• Os pais devem levar o filho autista a passear em locais públicos(Mello)
• Devem organizar actividades em horários pré-fixos por forma a estabelecer uma determinada rotina, como por exemplo, jantar, vestir o pijama, colocar na cama e apagar as luzes(Mello)
• Em algumas actividades do dia a dia, que se tornam rotineiras, a orientação para os pais deve de ser a de fomentar a variabilidade, como por exemplo, mudar o seu local na mesa, variar o canal da TV preferido dele, alterar o caminho para a escola, pois estas não são imutaveis e é bom que aprenda isto desde cedo(Mello).
Pais que tenham outros filhos para além do filho autista:
• Os pais devem explicar aos irmãos saudáveis que o irmão é autista, explicando-lhes o que significa essa deficiencia, evitando que mais tarde estas crianças criem a sua propria definição de autismo(Jelínková).
• Os pais devem reservar pelo menos alguns minutos por dia para falar da criança autista aos irmãos(Jelínková).
• Os pais não devem fazer distinções entre o filho saudável e o filho autista(Jelínková).
• Os pais devem gerir as actividades entre os irmãos para reduzir o insucesso(Jelínková).
• Os irmãos devem brincar juntos para ajudar na interacção social do filho autista (Jelínková).
Programa de intervenção dirigido para casa
O programa dirigido para casa é baseado no modelo de DIR e prevê:
• Interacções espontâneas e desenvolvimentalmente apropriadas
• Interacções semi-estruturadas – resolução de problemas
• Actividades motoras
• Actividades sensoriais
• Actividades visuo-espaciais
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Testemunho da Mãe de Francisco (Dulce Bregas )
~A questão é,quando uma criança é diagnosticada com autismo,deve de imediato ter terapias,e infelizmente isso às vezes não acontece;daí advêm problemas,e vão regredindo até que ficam fechadinhos no seu casulo.O nosso cérebro é um músculo,sendo estimulado e trabalhado evolui,não sendo...bloqueia e adoece.
O Francisco nasceu muito bem,palrou,sentou-se aos 7 meses,gatinhou,e aos 9 meses já andava agarrado aos móveis;aos 11 meses andou sozinho.O único atraso que ele teve foi nos dentes que só apareceram aos 9 meses,daí a alimentação sólida ter ficado para mais tarde.
A partir dos 18 meses reparamos que ele falava sozinho,repetindo reclames ou episódios de desenhos animados,lia matrículas pois já sabia o abecedário todo,e os números até 10.Também aos 18 meses recomeçou a usar chupeta,a ter grandes crises de choro,a comer mal,e nunca deu sinal de largar a fralda.
Até aos 2 anos fui crucificada pela sociedade por ele ser "estranho",seria mimado,preguiçoso e eu má mãe.A fralda teria de saír pois na pré-escola não entrava com ela.Mas foi infrutífero.Não respondia quando lhe chamavam pelo nome,odiava tirar fotografias,era muito sensível à luz,em casa era sereno e dormia muito,na rua tornava-se eléctrico.
Primeiros contactos com psicólogos do centro de saúde foram horríveis,já que o problema seria meu e não dele.
Recorremos então a médicos privados,e a conversa mudou.O nosso sistema de saúde infantil não está de todo preparado para estes meninos,fazem a última coisa que se deve fazer:culpar os pais.
A 1ª consulta com a psicóloga denunciou logo o que o Francisco tinha,era autista e nós éramos bons pais,já que sem saber,o estimulávamos muito,eu era mãe a tempo inteiro,ele tinha jogos didácticos,passeios diários,uma família equilibrada e muito amor.
Comecei então a procura por terapias,começamos pela Hipoterapia(com cavalos),logo ali,o Francisco começou a construir frases completas,criou uma relação mágica com os cavalos.Fomos também encaminhados para uma Associação NECI onde começamos a ter apoio psicológico(pais)e o Francisco a ter terapias fabulosas,gratuítas.
O Francisco tem também uma irmã de 11 anos que foi de muito apoio para ele,mas sofreu um bocadinho no meio deste desespero todo,teve também apoio psicológico.Para ela nada fazia sentido já que o irmão sempre foi assim,porquê agora este drama?
Para mim o diagnóstico foi um alívio,e só fui abaixo passado um mês,e aí chorei muito.
Mas cada pai reage de maneira diferente.Com todas as ajudas que tivemos de terapeutas e principalmente da NECI,aos 3 anos e meio o Francisco começou a largar a fralda,foi inscrito na pré-escola numa sala com uma Educadora também conhecedora das diferenças,pois tinha trabalhado na NECI.Nos 1ºs dias houve muitos descuidos,mas com todo o carinho elas tratavam dele,pois eu era alheia aos direitos de uma criança diferente,mesmo de fralda ele teria direito a frequentar a escola.
Hoje é um Sr. de 4 anos e 3 meses,vai sozinho ao wc,não usa fralda nem de dia nem de noite.Ama animais,daí termos este mês entrado numa aventura maravilhosa de obter uma cadela Golden,que vai ser muito útil em terapias.
O Francisco come pouco e pouca variedade.No mês de Agosto de 2009,não teve terapia alguma e simplesmente ele deixou de comer.Recomeçando as terapias,recomeçou a comer mas menos variedade.Não passa fome,mas aos olhos de pessoas alheias ao autismo ele come "muito mal".Come massinha sem nada,pão,leite,iogurtes,e pizza.Só!Faz análises regulares e cresce muito bem.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
O autismo explicado aos mais pequenos!
O que é o autismo?
Existem meninos e meninas que não vêem o mundo como tu. E não estamos a falar de não ver como os cegos, mas sim de não interpretar as coisas como tu fazes, de não conseguir associar alguém a chorar à dor ou tristeza, ou um riso à alegria, de não conseguir comunicar porque não liga as palavras ao que elas querem dizer. Estes meninos são autistas. Se calhar conheces algum ou tens um colega na escola que é autista. Estes meninos precisam de ajuda para fazer coisas que para ti são simples, não porque não se consigam mexer ou falar, mas porque o cérebro deles não é capaz de processar a informação necessária para fazer estas coisas. Mas existem diversos níveis de autismo, e os meninos com um autismo ligeiro, podem, com ajuda e apoio, aprender a fazer quase tudo e levar uma vida normal.
(este pequeno texto foi retirado do site http://www.inr.pt/content/1/222/que-autismo , é uma excelente maneira de explicar aos mais novos o que é o autismo =) aconselhamos)
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Características do Autismo
Uma vez que o nosso vídeo ainda não está pronto, decidimos colocar aqui um pequeno vídeo, que encontramos no youtube, sobre as características do autismo.
Esperemos que gostem :)
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Como se vive com um filho autista?
Ter um filho autista não é algo que se possa prever. Tendo-o, um mundo desconhecido desaba na cabeça dos pais. A vida sucede-se entre barreiras e dificuldades.
Marco dá um forte esticão. O técnico acompanha-o como umasombra. Um duplo corpo sobre o menino que foge por entre as árvores. Aos sete anos, tem um físico maior que a idade. É alto, um touro difícil de domar. Parece viver num outro mundo - onde os sons não entram. De regresso à sala do jardim-escola da Trafaria, o rapaz baterá com violência uma cadeira contra o chão. A pequena Mariana, dois anos e meio, assusta-se. Cai. Chora. Todos os técnicos se levantam. As outras crianças seguem serenas. Uma técnica beija e reconforta a menina. Outra desabafa: - É a primeira vez que a Mariana chora.
Uma reacção é uma festa Mariana chora! Tem uma resposta, uma reacção. O incidente já não será uma lembrança da dificuldade em lidar com Marco - chegado àquela nova sala de Intervenção Terapêutica Intensiva para Autistas, da ABC Real, em Setembro passado. O choro da minúscula Mariana é motivo de comemoração. A reacção de uma criança com autismo é sempre uma festa. Um sinal de que se entrou nesse mundo inacessível, onde vivem. Que se derrubou mais um tijolo do muro que nos impede tantas vezes de comunicar.
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Um técnico por criança à mesa de trabalho, um técnico por criança à mesa de refeições, um técnico por criança no intervalo.
Meses antes, no Colégio Campo de Flores, na Caparica, onde funciona há cerca de um ano a primeira destas salas, onze crianças pequenas trabalham à frente de uma mesa. É a primeira turma-piloto do ABA em Portugal. Cada técnico português, formado pelos norte-americanos, encarrega-se de desenvolver e trabalhar uma das competências que qualquer outra criança da mesma idade adquire, em regra, sozinha. De 25 em 25 minutos, Marina, responsável pela sala, toca uma sineta. Nesse momento, cada criança é mudada de mesa, como se trabalhasse numa linha de produção de uma fábrica. É meio-dia. O trabalho delas começou às oito da manhã e está a chegar ao fim. Nenhuma, porém, dá sinal de cansaço ou indisposição.
Pais apanhados de surpresa Ao contrário do que aconteceria em qualquer outra sala de aula com crianças da mesma idade, a presença de um estranho, a minha, não é notada. Ninguém me dirige o olhar ou a fala. Sou uma nuvem invisível. Na Caparica. Na Trafaria.
Mas, para que estas crianças chegassem aqui, muito teve de acontecer na vida delas e dos pais. Muito teve de acontecer também na vida de Albertina Marçal, mãe de um adolescente com síndroma de Asperger, fundadora da ABC Real Portuguesa e responsável pela 'importação' deste método.
Foi no momento em que Alexandra e Carlos equacionavam a possibilidade de ter mais um filho que o diagnóstico os apanhou de surpresa. Há muito que a família os alertava para alguns sinais perturbadores no comportamento do filho. Tiago tinha pouco mais de dois anos. Não falava, repetia exaustivamente alguns sons. Ao mesmo tempo balançava as mãos. Não reagia às conversas dos adultos, mesmo quando a voz lhe era dirigida. E, apesar disso, era um menino muito meigo.
Primeiros sinais Durante longo tempo, os pais negaram a possibilidade de o filho ter algum problema. Comparavam o comportamento de Tiago ao seu quando crianças. Até o pediatra, um conhecido médico de Lisboa, dizia, a cada consulta de rotina, que tudo ia bem. Os pais repetiam para si próprios: "Ele tem muito tempo para falar e para fazer o mesmo que as outras crianças". A este pensamento juntavam um facto: Tiago tinha problemas de ouvidos. Uma otite serosa poderia ser a causa do atraso na fala. O médico otorrino concordava e pedia mais tempo.
Mário Relvas, pai de um autista de 21 anos, diz que o filho também lhe parecia surdo. Os primeiros testes, porém, consideram que tem uma audição normal. Aos seis meses, Bruno podia entreter-se durante horas apenas a olhar para as mãos. Uma obsessão que não passava despercebida aos pais.
Catarina Lourenço, mãe de Afonso, 9 anos, e Martim, 8 anos - o primeiro com o diagnóstico de autista e o segundo de Asperger - lembra o que a pediatra então lhe disse: "Não se preocupe. Einstein só falou aos quatro anos". Afonso também era muito meigo. "Muito calmo. Não dava trabalho nenhum", lembra a mãe. As suspeitas dos pais de Afonso começaram quando perceberam que não reagia ao nome. Mas mais uma vez não se tratava de um caso de surdez. O diagnóstico final só veio muitos anos depois. Quando a própria mãe, depois de muitas horas passadas na Internet, decidiu arriscar a pergunta: "Mas é autismo ou não?" Ouviu finalmente um sim do pedopsiquiatra Pedro Caldeira.
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Afonso era acompanhado no Hospital de Santa Maria, desde os dois anos, por uma psicóloga. Até aí impunham-se as palavras "perturbação da comunicação e de relacionamento". Na verdade, os autistas sofrem disso, mas de tantas outras coisas mais. Cada caso é um caso; e o espectro da doença é um leque tão vasto que é difícil definir exactamente o que faz um autista ou não. Uns são meigos, outros violentos. Uns falam, outros não. As variantes são infinitas. Mas têm algo em comum; todos erguem barreiras, dificultam a relação com o mundo.
O diagnóstico, por sua vez, não é fácil de conseguir. Médicos e técnicos têm medo de errar. Porque na verdade também erram, para o bem e para o mal.
Testes atrás de testes Os primeiros testes do Tiago, realizados por uma técnica com experiência, não detectam qualquer problema. Mas as pressões familiares tornam-se maiores. A mãe muda de pediatra. Volta a repetir os testes. Por fim, o diagnóstico chega: "O Tiago tem uma perturbação do espectro de autismo", dirá Rosa Gouveia, pediatra do desenvolvimento, no Hospital CUF Descobertas.
A resposta a todas as dúvidas não sossega ninguém. Pelo contrário. Potencia uma avalancha de questões. E desta vez as respostas são ainda mais difíceis de obter. Se os pais de Tiago, em pleno século XXI, sentiram muitas dificuldades e incompreensões, Mário e a mulher, duas décadas antes, tiveram uma luta ainda maior: "Alguns profissionais de saúde não estão, ainda, devidamente sensibilizados para o autismo", desabafa Mário Relvas.
Calvário de consultas Quando Bruno nasceu, os profissionais sabiam ainda menos. Mas no passado como hoje o processo de compreensão dos pais é quase sempre um verdadeiro calvário de consultas. Os pais de Tiago percebem que ele tem de começar a ser tratado. "Mas como?". Ao mesmo tempo surge outra questão mais íntima, dolorosa e igualmente difícil de colocar: "Porquê?"
Ao contrário de outras doenças, como a Trissomia 21, o autismo não é diagnosticável durante a gestação. Dificilmente se descobre antes dos 18 meses de vida. As causas são multifactoriais, além de que não se consegue saber exactamente quais os elementos determinantes para a criação de um espaço propício à emergência do espectro autista. Os testes genéticos às crianças são importantes. Mas, de modo algum, indicam o caminho a seguir, a forma como a intervenção terapêutica deve ser feita. Tiago, Bruno, Afonso fizeram-nos. Nenhum deles demonstra ter alguma alteração genética, alguma malformação.
Orfãos do Estado e do SNS Entre as poucas certezas que há em relação à doença, a principal é a de que, quanto mais cedo houver intervenção terapêutica ao nível comportamental, melhores são os resultados. Mas nenhum pai está preparado para o que vem a seguir: um mundo de dificuldades, onde se sentem órfãos do Estado e do Sistema Nacional de Saúde.
Nesta fase, também não é raro um dos pais começar a sentir-se um pouco mais culpado, pensando que a carga genética que transporta é a responsável. Mas no íntimo dos dois tudo é posto em causa. Mesmo que não o confessem. A esta fase os especialistas chamam normalmente "luto". E sem o 'luto' cumprido não há como avançar. Ou seja, é imperioso aceitar a situação. Agir rapidamente.
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Mário diz que a lacuna ao nível de consultas de diagnóstico do Sistema Nacional de Saúde deixa campo aberto para que alguns privados monopolizem estas intervenções e as seguintes, ou seja, já na fase de acompanhamento, desenvolvimento, terapia.
Os pais informados sabem, porém, o quanto urge agir. A espera pode ter efeitos muito nefastos ao longo de toda a vida do filho; e os estudos existentes são unânimes em considerar que a eficácia do tratamento comportamental é muito maior quando aplicado, de modo intensivo, até aos quatro anos. O cérebro é mais plástico, flexível. Absorve melhor a aprendizagem. Depois todos os avanços são mais lentos. É, de resto, por essa razão que a grande batalha científica nesta área está em encontrar métodos de diagnóstico que possam ser fiáveis na mais tenra idade.
Autismo é prioridade para Obama Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, não é, de resto, alheio a este problema. Tornou o autismo uma prioridade na saúde infantil, e adjudicou 5 mil milhões de dólares à investigação nesta área, faz agora um mês. Os norte-americanos já gastam cerca de 60 mil milhões de dólares por ano nesta doença. Com o crescimento exponencial do número de afectados, que os estudos apontam como certo, julga-se que dentro de dez anos este valor andará entre 200 e 400 mil milhões de dólares. Aquilo que começa a parecer uma epidemia (não apenas norte-americana, embora as estatísticas deste país sejam as mais antigas e fiáveis) é também uma hecatombe económica.
Na fase de 'luto' dos pais deveria iniciar-se a ajuda psicológica. Raramente, porém, são encaminhados para serviços de psicologia pelos técnicos com quem se vão cruzando. Ou decidem avançar por meios próprios, pedindo ajuda ao médico de família, ou se entregam à dor e à alienação, mesmo que ainda não tenham presentes algumas das consequências da doença ao longo da vida. Têm de reaprender a lidar com o filho e com os sentimentos.
Famílias divididas Catarina teve a sorte de ser acompanhada no próprio Hospital de Santa Maria. Alexandra desabafou com a médica de família. Em troca recebeu antidepressivos. Há também quem enfie a cabeça na areia numa tentativa de minimizar a importância da doença do filho. Muitos pais ouvem ainda o que não gostam, mesmo dos familiares ou dos técnicos. Não raras vezes, as famílias dividem-se. Todos têm opiniões, mesmo quando não fizeram nenhum esforço para se informar. O isolamento cresce. O muro é cada vez mais alto. E se os técnicos em geral recusam a ideia de muro, pais como Catarina não têm problema nenhum em assumi-lo. "A minha vida mudou a nível pessoal, social, profissional. É muito duro lidar com tudo isto. Se não encararmos o muro, nunca o vamos resolver. Estou farta do politicamente correcto", desabafa.
Catarina é bailarina da Companhia Nacional de Bailado (CNB). Quando se preparava para estudar outra vez e escolher uma nova profissão - consciente de que a vida de uma bailarina tem 'prazo de validade' -, descobriu que tinha um filho autista. O terceiro filho, Martim, também exigiria tratamento. É Asperger. A sua vida é um colete-de-forças. Não é fácil conciliar os seus horários profissionais e os do marido, seu colega na CNB, com as terapias dos miúdos.
No caso de Tiago, um dos primeiros embates ocorreu na escola, um colégio privado, onde inicialmente todos quiseram ajudar. A polémica surgiria a propósito de um pormenor. Na sala havia um espelho. O espelho provocava-lhe um comportamento repetitivo, uma estereotipia, que se não for correctamente contrariada agrava o autismo. Numa reunião, a mãe e a psicóloga que acompanha a criança pedem à directora da escola e ao psicólogo do colégio para retirarem o espelho. "Tem de se habituar como os outros meninos", foi a resposta taxativa. A psicóloga e a mãe ainda contrapõem: "Mas isso é como pedir a um paraplégico que deixe a cadeira de rodas e ande".
A escola não recua. A mãe ainda ouve: "Já sabemos que ele não vai ser engenheiro profissão do pai, mas ao menos gostaríamos que ele fosse autónomo".
Trabalho a tempo inteiro A ignorância é democrática. E nem os técnicos de educação escapam. Mário, por exemplo, diz que teve muitos problemas a nível profissional, nomeadamente na altura em que era polícia.
Um ano depois do diagnóstico, surge a separação dos pais de Tiago. A situação tornara-se insustentável. Mais uma vez, como em quase toda esta história, os pais de Tiago cumprem estatísticas. "Um autista prende 24 horas sobre 24. Por isso, o cansaço surge e a incompreensão que nos afecta gera algum mal-estar", reconhece Mário.
Catarina e Mário, o pai de Afonso e Martim, continuam juntos após 14 anos de vida em comum. "Somos teimosos", diz Catarina. Albertina e o marido sobreviveram a tudo, mas Albertina não esconde: "Estamos cansados. Ser pai de uma criança destas é um trabalho a tempo inteiro, e isso é reconhecido nos Estados Unidos. Mário, que ainda hoje está casado, confirma que é difícil preservar o casamento: "Deixámos de ter tempo para nós como casal. Não podemos sair à noite, ir jantar fora, não podemos ter um momento para nós".
Os autistas exigem uma rotina muito disciplinada, e podem ser muito exclusivos nas relações. Delas dependem de uma forma extrema. Mário lembra o caso de um filho adulto que morreu apenas algumas semanas depois do pai ter sido internado num hospital.
O importante é não desistir No caso de Bruno, é a mãe que costuma ir buscá-lo à escola desde pequenino: "Se for eu, tenho de o entreter até a mãe chegar a casa, caso contrário gera-se um mal-estar nele que o leva a ficar perturbado e a ter uma alteração radical no comportamento", conta Mário.
Ir a um supermercado, centro comercial ou a um restaurante pode ser um dos maiores desafios para os pais do Bruno. Mas ainda assim não desistem. Quando o conseguem, Mário publica a 'reportagem' no seu blogue(http://aromasdeportugal.blogspot.com). Cada passo é conquistado dia-a-dia. Em adultos, a perturbação é mais difícil de controlar: "Passam a ser adultos com força e voz grossa... e já não são aquelas criancinhas de quem os estranhos diziam 'mal-educados, fazia-lhes falta era um par de tabefes'", continua Mário.
Catarina está a sentir essa fase no filho. "Ontem, partiu a porta da máquina de lavar roupa, queria voltar a vestir a mesma roupa, que eu já tinha posto para lavar". Mudaram o professor de Afonso na escola pública que frequentava. "Ainda fizemos um abaixo-assinado... A referência dele na sala era o professor. Desde o início das aulas que grita todos os dias antes de sair de casa e atira-se para o chão". Não é duro só para ela e para o pai. A irmã mais velha de Afonso, Filipa, tem 14 anos e não escapa ao stresse de que todos sofrem na família.
"A minha filha pensa muito e pensa que, quando for grande, também pode ter um filho assim", continua Catarina. Na altura em que os pais de Tiago se separam, as despesas com o tratamento do filho já representam uma fatia significativa no orçamento familiar. Agora, só em terapias, Tiago custa 800 euros por mês, fora os 430 euros de colégio normal. Até ao momento não tem qualquer subsídio. No ABA, cada criança fica por mil euros/mês, sendo que a ABC Real conta com salas cedidas por instituições e que o pagamento de cada criança se esgota no salário de um técnico e nos materiais. Afonso e Martim pesam 900 euros por mês. Quanto a Bruno, continua dependente dos pais aos 21 anos. Mário diz não saber o que vai ser de Bruno se alguma coisa lhes acontecer.
"Vivemos com uma espada sobre a cabeça", desabafa Mário. Na voz triste percebe-se que está cansadode lutar.
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
O que nos pediria um autista ?
1 - Ordem e estrutura, antecipando o que vai acontecer.
2 - Respeita o meu ritmo. O normal é que eu me desenvolva cada vez mais.
3 - Fala-me pouco e devagar. As palavras em demasia podem ser uma carga muito pesada para mim.
4 - Diz-me, de algum modo, quando consigo executar tarefas bem feitas, mesmo que nem sempre eu consiga. Necessito compartilhar o prazer e o gosto de fazer as coisas bem feitas.
5 - Necessito de mais ordem e mais previsibilidade no nosso convívio. Teremos que negociar os meus rituais para convivermos.
6 - Não permitas que me acomode e permaneça inativo, mesmo sendo difícil compreender o sentido de muitas das coisas que me pedem para fazer. Elas têm que ter um sentido concreto. 7 - Respeita as distâncias que necessito, porém sem me deixar só. As pessoas são, às vezes, demasiadamente imprevisíveis, ruidosas ou estimulantes.
8 - Quando eu me zango ou me magoou; se destruo algo ou me movimento em excesso; quando me é difícil atender ou fazer o que me pedem, não estou a querer prejudicar-te. O que faço não é contra ti. Não me atribuas más intenções!
9 - O meu desenvolvimento não é absurdo, embora não seja fácil de entender. Muitas das condutas são formas de enfrentar o mundo na minha especial forma de ser e perceber.
10 - O meu mundo não é complexo e fechado. Pelo contrário, é aberto, sem dissimulações e mentiras, tão ingenuamente exposto aos demais, que é difícil entrar nele.
11 - Não me peças sempre as mesmas coisas nem me exijas as mesmas rotinas. O autista sou eu, não tu!
12 - Não sou só autista. Sou uma criança, um adolescente, ou um adulto. Compartilho muitas coisas das crianças, adolescentes ou adultos. É aquilo que compartilhamos que nos une.
13 - Vale a pena viver comigo. Podes chegar a um momento da tua vida em que eu, que sou autista, seja a tua maior e melhor companhia.
14 - Não me dês medicamentos em demasia, não preciso deles, apenas necessito do acompanhamento periódico de um especialista.
15 - Ninguém tem culpa das minhas reações e condutas difíceis de compreender. A ideia de "culpa" só produz sofrimentos.
16 - Ajuda-me a ter mais autonomia, mas pede-me só o que posso fazer.
17- Necessito estabilidade e bem estar emocional ao meu redor para estar melhor. Para mim, não é bom que estejas mal e deprimido.
18 - Ajuda-me com naturalidade, sem obsessão. Aproxima-te de mim, porém, deves ter os teus momentos de repouso ou dedica-te às tuas própria atividades.
19 - Aceita-me como sou. A minha situação normalmente melhora, ainda que, no momento, não tenha cura.
20 - A minha vida pode ser satisfatória, se é simples, ordenada e tranquila. Ser autista é um modo de ser, ainda que não seja o normal. Nessa vida, podemos encontrar-nos e compartilhar muitas experiências.
(Adaptação do texto de Angel Rivière, Autism-Spain - Assessor Técnico da APNA - Madrid, 1996.)
2 - Respeita o meu ritmo. O normal é que eu me desenvolva cada vez mais.
3 - Fala-me pouco e devagar. As palavras em demasia podem ser uma carga muito pesada para mim.
4 - Diz-me, de algum modo, quando consigo executar tarefas bem feitas, mesmo que nem sempre eu consiga. Necessito compartilhar o prazer e o gosto de fazer as coisas bem feitas.
5 - Necessito de mais ordem e mais previsibilidade no nosso convívio. Teremos que negociar os meus rituais para convivermos.
6 - Não permitas que me acomode e permaneça inativo, mesmo sendo difícil compreender o sentido de muitas das coisas que me pedem para fazer. Elas têm que ter um sentido concreto. 7 - Respeita as distâncias que necessito, porém sem me deixar só. As pessoas são, às vezes, demasiadamente imprevisíveis, ruidosas ou estimulantes.
8 - Quando eu me zango ou me magoou; se destruo algo ou me movimento em excesso; quando me é difícil atender ou fazer o que me pedem, não estou a querer prejudicar-te. O que faço não é contra ti. Não me atribuas más intenções!
9 - O meu desenvolvimento não é absurdo, embora não seja fácil de entender. Muitas das condutas são formas de enfrentar o mundo na minha especial forma de ser e perceber.
10 - O meu mundo não é complexo e fechado. Pelo contrário, é aberto, sem dissimulações e mentiras, tão ingenuamente exposto aos demais, que é difícil entrar nele.
11 - Não me peças sempre as mesmas coisas nem me exijas as mesmas rotinas. O autista sou eu, não tu!
12 - Não sou só autista. Sou uma criança, um adolescente, ou um adulto. Compartilho muitas coisas das crianças, adolescentes ou adultos. É aquilo que compartilhamos que nos une.
13 - Vale a pena viver comigo. Podes chegar a um momento da tua vida em que eu, que sou autista, seja a tua maior e melhor companhia.
14 - Não me dês medicamentos em demasia, não preciso deles, apenas necessito do acompanhamento periódico de um especialista.
15 - Ninguém tem culpa das minhas reações e condutas difíceis de compreender. A ideia de "culpa" só produz sofrimentos.
16 - Ajuda-me a ter mais autonomia, mas pede-me só o que posso fazer.
17- Necessito estabilidade e bem estar emocional ao meu redor para estar melhor. Para mim, não é bom que estejas mal e deprimido.
18 - Ajuda-me com naturalidade, sem obsessão. Aproxima-te de mim, porém, deves ter os teus momentos de repouso ou dedica-te às tuas própria atividades.
19 - Aceita-me como sou. A minha situação normalmente melhora, ainda que, no momento, não tenha cura.
20 - A minha vida pode ser satisfatória, se é simples, ordenada e tranquila. Ser autista é um modo de ser, ainda que não seja o normal. Nessa vida, podemos encontrar-nos e compartilhar muitas experiências.
(Adaptação do texto de Angel Rivière, Autism-Spain - Assessor Técnico da APNA - Madrid, 1996.)
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